Celebrar a diversidade

Celebrar a diversidade é um dos lemas da Bartolomeu Perestrelo, Escola Associada da UNESCO desde 2020. Situada no centro do Funchal, com ensino básico do Pré-escolar ao 9º ano, a Escola carateriza-se pelo grande dinamismo ao longo do ano letivo, com atividades e projetos diversificados, e onde há sempre algo a acontecer. O Projeto Educativo dá primazia à Inclusão, um dos principais eixos, e nesta área tem vindo a ser desenvolvido na escola um trabalho notável.

O decreto-Lei nº54/2018 que estabelece o regime jurídico da educação inclusiva coloca o foco na resposta à diversidade de todos os alunos, de modo a garantir o sucesso educativo, resposta esta que constitui um dos maiores desafios à Educação. O mundo em que vivemos “acrescenta” diversidade à diversidade e coloca-nos desafios sociais, económicos e ambientais sem precedentes; são as novas formas de família, o desenvolvimento tecnológico vertiginoso, a infinidade de estímulos a que estão sujeitos os nossos alunos, o bombardeamento de informação e desinformação… enfim, um mundo complexo e incerto onde a palavra de ordem é a mudança.

Ao longo dos tempos a escola tem respondido às necessidades das sociedades. No Paleolítico era requerida a força física; na Idade Média a formação religiosa e guerreira; nas sociedades industriais a formação para o mercado de trabalho.

Que respostas deve dar a Escola face aos desafios que se impõem às sociedades contemporâneas?

No Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, Jaques Delors defende uma via que conduza a um desenvolvimento humano mais harmonioso, mais autêntico, de modo a fazer recuar a pobreza, a exclusão social, as incompreensões, as opressões, as guerras. A par da exigência científica e técnica, Delors refere a importância de desenvolver o autoconhecimento e a construção de capacidades que permitam orientar a ação de cada um, como membro de uma família, cidadão ou como um produtivo membro da sociedade. Neste Relatório, os 4 pilares da UNESCO para a Educação no século XXI são claros, numa perspetiva holística de formação num todo, o aluno deve  Aprender a conhecer, Aprender a fazer, Aprender a viver juntos, Aprender a ser.

O relatório The Future of Education and Skills – Education 2030 da OCDE, atribui à escola o papel de promover nos alunos o desenvolvimento de competências, conhecimento, atitudes e valores, e realça o bem-estar. Segundo Andreas Schleicher (OCDE), crianças e jovens com mais competências sociais e emocionais têm tendência para alcançar melhores notas, melhores empregos e salários mais elevados, além de uma maior longevidade e menos comportamentos violentos ou criminosos.  O Relatório realça também o pensamento crítico, e o criativo como uma das competências relevantes face à complexidade e à incerteza da sociedade e do mercado de trabalho.

 

Neste sentido, partilho um projeto em funcionamento na minha Escola, que acredito ser uma estratégia pedagógica eficaz na contribuição para uma educação com base na consciência que favorece o bem-estar dos alunos, o desenvolvimento das aprendizagens e é promotora da inclusão – o Tempo de Silêncio/Meditação Transcendental.

Este projeto foi implementado na Bartolomeu Perestrelo em 2019, no âmbito do FRIENDS (Fostering Resilience-Inclusive Education and Non-Discrimination in Schools), um projeto cofinanciado pela Comissão Europeia com vista a promover a Educação Inclusiva através do programa Tempo de Silêncio/MT. Na prática, trata-se de uma técnica simples, cientificamente documentada, sem custos orçamentais, e aplicada com sucesso em muitas escolas pelo mundo, que não implica alterações ao currículo, mas apenas a incorporação da prática do “Tempo de Silêncio” em 10 a 15 minutos, no início e no final da atividade letiva. A sua implementação é favorecida pelas condições da monodocência, razão pela qual o projeto está a funcionar em turmas do 1º ciclo. Periodicamente, o projeto é monitorizado e os resultados revelados são bastante satisfatórios. As professoras colocam em evidência o interesse dos alunos pela prática e os benefícios a nível do bem-estar e da pré-disposição para as aprendizagens; os alunos mostram-se interessados e os pais satisfeitos com os resultados.

A título de exemplo, apresento extratos de testemunhos de professoras titulares de turmas envolvidas no Projeto:

“… Segundo as crianças, os TS foram momentos agradáveis, que tendo sido incorporados nas rotinas diárias da turma, passavam sempre muito rápido. No final, sentiam-se mais calmos e descontraídos (principalmente após o recreio).

(…) Pessoalmente, enquanto docente aplicadora do TS, verifico que os alunos ficam muito mais calmos e tranquilos, acalmando o ambiente da sala de aula e a disponibilidade para a aprendizagem. Noto que, após o MT as crianças aumentam o seu nível de atenção/concentração, trabalhando de forma mais autónoma e mais rápida, parecendo ganhar uma nova “energia”, que os impele de forma pacífica para a realização dos trabalhos. Assim sendo, e após dois anos de prática e aplicação do MT, sinto-me muito satisfeita com os resultados obtidos e motivada a continuar o percurso iniciado, pois vejo que esta é uma rotina “natural” e desejada pelos alunos.” (prof. Letícia Romão)

 

“(…) Todos os dias eram os alunos que relembravam que tinham de fazer a meditação, o que só por si era indicador do nível de interesse demonstrado pelos mesmos. Da parte dos pais, de uma forma geral, mencionaram que os seus educandos pelo menos uma vez ao fim de semana faziam também em casa o exercício de meditação e que notaram diferenças na postura destes perante a frustração, paciência e tolerância.” (prof. Raquel Sousa)

Aos alunos, no âmbito da monitorização, é feita uma “sondagem” que consiste em pedir para pensarem nos momentos em que meditam, no que sentem, e para escreverem palavras que lhes vem à mente sobre esses momentos. Os registos evidenciam sentimentos positivos que vivenciam naqueles momentos. Algumas palavras aparecem repetidamente, e, “CALMA” é a que surge em maior número, seguida de “SILÊNCIO”; “FELIZ/FELICIDADE”; “DESENHO”; “TRABALHAR”; “VONTADE”, “PAZ”; “AMOR”; “AMIZADE”; “BOM”; “RELAXO/RELAXAMENTO”; “ALEGRIA”; “CONFORTÁVEL”; “IMAGINAR”. Outras menos prováveis mas não menos interessantes aparecem isoladamente como por exemplo, “FADAS”; “ARCO-ÍRIS”; “SEREIAS”; “HORTÊNSIA”; “COELHO”; “POKEMON”,… refira-se ainda as seguintes frases de um dos alunos: “IMAGINO COISAS QUE GOSTO”; “SINTO AMOR NO AR”. As palavras falam por si.

 

Os testemunhos apresentados, descrevem os efeitos que têm sido já revelados por estudos realizados, nomeadamente no âmbito do Projeto FRIENDS que envolveu várias universidades europeias e em Portugal, a Universidade do Algarve, que indicam redução dos desafios sociais e mentais como o bullying, diminuição do défice de atenção e da hiperatividade; a melhoria do respeito e da tolerância, redução do stress e da ansiedade, aumento da autoestima e autoconfiança, aumento da resiliência e do bem-estar dos alunos. Uma educação com base na consciência que se traduz numa melhoria das competências sócio emocionais, que promove a inclusão e se reflete numa maior eficácia profissional dos professores.

 

Maria do Rosário Brazão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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