A importância do som e da música no desenvolvimento da consciência

“Pela vibração de som cada um se liberta”
(Vedanta, 4:22)

 

O som encontra-se presente sob inúmeras formas na nossa vida diária e assim tem sido desde as origens da Humanidade. Sonoridades que podem considerar-se primordiais, resultantes do trovão, do vento, da chuva, das ondas do mar, do cantar das aves e sons produzidos por outros animais eram certamente familiares aos primeiros grupos humanos do Paleolítico.

Assim, ao longo da história, a experiência humana do som tem contribuído para o modo como percecionamos o mundo e interagimos com ele e com cada pessoa. De facto, as nossas próprias emoções e sentimentos, são largamente influenciadas pelos sons que nos rodeiam, provocando bem-estar ou mal-estar conforme eles sejam agradáveis ou desagradáveis.

As origens da música remontam ao Paleolítico Superior ou talvez mesmo a alguns milénios antes, existindo evidências no registo arqueológico tais como flautas de osso encontradas em grutas da Alemanha e de França, entre outros objetos criados intencionalmente para a produção de som. Mais tarde, com a vida sedentária, surgem outros tipos de instrumentos musicais mais aperfeiçoados. Por exemplo, a utilização de matérias-primas como a cerâmica leva à produção de tambores que seriam usados certamente em cerimoniais diversos. De acordo com o professor Sufi e músico indiano Hazrat Inayat Khan (1882-1927), o som de tambor incide diretamente no sistema nervoso do ser humano, trazendo-o para uma determinada frequência.

Temos na nossa posse três réplicas de tambores neolíticos em cerâmica, que testámos em vários monumentos funerários pré-históricos e em grutas. Curiosamente, em testes efetuados no Hipogeu 1 da Quinta do Anjo (Palmela), local com grande reverberação sonora, o som da percussão parecia girar por todo o monumento, causando uma profunda sensação de relaxamento (Fig.1).

Fig.1 – O autor, tocando réplicas de tambores pré-históricos no Hipogeu 1 da Quinta do Anjo

 

A música, sendo uma organização intencional de diversos sons, utiliza diferentes tipos de ritmo, harmonias e melodias, provocando sentimentos, emoções, recordações e conexões profundas, que por vezes nos transportam para outro lugar.

Na Grécia Clássica acreditava-se que a música possuía um Ethos, ou seja, ela podia criar determinados estados de ânimo, tendo influência na criação da personalidade e no alívio de emoções acumuladas. De acordo com Platão, ela deveria fazer parte da educação do ser humano, com a finalidade de formar o seu carácter integral, tendo influência no intelecto e no desenvolvimento da consciência.

Alguns tipos de música ou de sons podem ainda ser responsáveis por estados ampliados de consciência. Por exemplo, isso pode ser atingido através de um ritmo de percussão contante, com padrões repetitivos, passando a atenção a concentrar-se no “interior” do indivíduo, diminuindo a perceção do meio ambiente, e aumentando o foco nas emoções e nas memórias.

Segundo o psicólogo norte-americano Abraham Maslow (1908-1970), durante a audição de música podem ocorrer o que ele denominou como “experiências culminantes”, porque ela desencadeia certos mecanismos que induzem mudanças significativas nos estados de alma e na experiência emocional, que contribuem para o desenvolvimento da consciência.

As vocalizações e os cânticos, que provavelmente remontam a épocas recuadas da Pré-História, fazem parte integrante de certos tipos de música, com inúmeros exemplos ao longo dos tempos. Investigação científica na área da Neurociência e da Endocrinologia realizada com grupos de canto demonstrou que a interação produzida entre os participantes provoca, não só, uma maior conexão social, mas também pode aumentar os níveis de neurohormonas como a dopamina, (responsável por sensações de prazer e recompensa), serotonina (reguladora dos estados de ânimo) e oxitocina (relacionada com relacionamento social positivo).

Alguns tipos de cânticos rítmicos tradicionais podem dar origem a estados ampliados de consciência, sendo mais eficazes quando praticados em grupo, existindo diversos exemplos nas tradições védicas, hindus e budistas. Os denominados mantras utilizados em meditação constituem sons ou vibrações destinadas a dirigir a atenção da mente para níveis mais profundos de perceção e assim contribuir para o desenvolvimento da consciência humana.

Enquanto na sociedade ocidental a música é geralmente associada ao entretenimento e à cultura, em muitas sociedades tradicionais ela é uma parte integrante da vida diária, utilizada para transmissão de conhecimento, para recordar antepassados ou para regular atividades sociais, entre outras funções, conforme os costumes dos tempos e dos lugares.

A prática da musicoterapia, com evidências muito antigas, começou a ter aplicação de carácter científico em meados da década de 40, apresentando hoje um grande desenvolvimento por quase todo o mundo. Um exemplo que tem sido bastante estudado é a música clássica indiana, centrada na existência de ragas, ou seja, tonalidades características com um conjunto definido de frequências, tocadas e cantadas de forma repetida. De facto, investigação sobre este tipo de música revelou que um ritmo forte pode estimular as ondas cerebrais a ressoar em sincronia com o mesmo, ocorrendo, com ritmos acelerados, maior concentração mental e pensamento num estado mais alerta, enquanto uma sonoridade mais lenta promove um estado calmo e meditativo. Quem já assistiu a concertos de música indiana, onde sobressaem instrumentos como a tampura, o bansuri e as tablas sabe, por experiência própria, como as sonoridades produzidas facultam um profundo bem-estar.

A prática musical, seja ela destinada a finalidades de lazer ou terapêuticas, constitui também uma forma de autodescoberta e de crescimento pessoal, o que parece explicar a existência de inúmeros músicos autodidatas de grande qualidade.

Pode afirmar-se que o som tem um verdadeiro poder transformador, atingindo dimensões subtis da consciência. Por exemplo, a utilização de alguns mantras védicos em meditação produz no cérebro (no sistema límbico) uma ressonância com a frequência de 6 a 7Hz, que é verificável através de ondas Theta em eletroencefalogramas. A redução do ritmo respiratório e cardíaco observado durante a prática de Meditação Transcendental, testada cientificamente, parece ser explicada precisamente pelo aquietar da atividade daquele sistema, produzindo equilíbrio emocional, resistência ao stress, melhoria da saúde e bem-estar geral, entre outros resultados.

Pode-se concluir que alguns sons e certos tipos de música têm inegáveis efeitos na mente e no corpo, verdade que a ciência moderna ainda não explorou convenientemente, sendo uma área onde será proveitosa a interação entre espiritualidade ancestral e ciência, aliás como vai acontecendo cada vez mais.

Os efeitos benéficos de determinados tipos de sons no desenvolvimento da consciência podem fundamentar-se naquilo que em Física é conhecido por Teoria das Cordas, segundo a qual todas as partículas na Natureza são manifestações da vibração de algo mais elementar. Interessantemente, o físico Max Planck (1858-1947), prémio Nobel em 1918 e um dos fundadores da Física Quântica, numa entrevista ao jornal britânico “The Observer” publicada em 25 de janeiro de 1931, afirmou: “Considero a consciência como fundamental. Considero a matéria como derivada da consciência (…) Tudo de que falamos, tudo que consideramos como existente sugere a existência de consciência”. Sons e música podem significar que estamos todos mergulhados em algo mais elementar, como um Campo Unificado de vibrações invisíveis, partilhando uma experiência de desenvolvimento da consciência individual e coletiva no contexto da grande sinfonia do Universo. Na realidade, como já dizia o texto védico – “Pela vibração de som cada um se liberta”.

Fernando Augusto Coimbra
Instituto Terra e Memória
Instituto Politécnico de Tomar

Para saber mais:
Coimbra, F. A. (2022). Arqueologia do Som, Música e Metafísica. Textiverso, Leiria, 211p.

 

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